O surgimento dos adinkras como um conjunto de símbolos gráficos da cultura Akan, proveniente de Gana, remonta a séculos de história e tradição oral africana. Esses símbolos, usados para transmitir conhecimentos filosóficos, estéticos, religiosos e sociais são um exemplo de saberes africanos que transcendem o tempo e o espaço. Um desses símbolos, o Sankofa, carrega um significado profundo e essencial: “volte e bueque”. Ele nos ensina que olhar para o passado é necessário para compreender o presente e planejar um futuro mais justo.
No contexto do ensino e da educação no Brasil, o conceito e movimento Sankofa tornam-se ferramentas cruciais para a construção de uma pedagogia antirracista, que valoriza a história e a cultura africana e afro-brasileira, recuperando memórias e identidades que foram apagadas pelo colonialismo.
Conforme Leis nº. 10.639/03 e nº. 11.645/98 que altera a LDB nº. 9.394/96 torna obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas foi um marco nas lutas antirracistas no Brasil. Elas responderam diretamente à necessidade de revisitar o passado colonial e escravocrata do país, com o objetivo de formar novas gerações conscientes de suas raízes africanas e indígenas. A elas somam-se as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola (2012), confirmando o parêntese dessas reivindicações de grupos humanos fundadores dessa nação.
O Sankofa, nesse contexto, funciona como uma metáfora viva para o processo de educação antirracista: ao ensinar as contribuições dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas para a formação da sociedade, o ato de “buscar no passado” revela não apenas a história, mas também novas possibilidades de futuro.
O XVI Congresso Internacional Artefatos da Cultura Negra, sediado no Cariri cearense a partir da congregação de diferentes departamentos e grupos de pesquisa da Universidade Regional do Cariri – URCA, de universidades malungas e parceiras: Universidade Federal do Cariri, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará, bem como de organizações da sociedade civil: Grupo de Valorização Negra do Cariri, ALDEIAS Ponto de Cultura, focará em 2025 no que vamos nomeando como “Movimento Sankofa: e bem-viver”, a fim de analisarmos crítica e (a)efetivamente no que avançamos coletivamente, em qual situação nos encontramos para, enfim, empreendermos no que ainda podemos depositar energias para conquistar o que nos é de direito numa sociedade sonhada por nossos e nossos ancestrais a fim de que gozemos do bem viver como uma realidade de direito.
As ações afirmativas no ensino superior, como as cotas para pessoas negras e indígenas, são conquistas diretas dessas lutas políticas e sociais empreendidas na América ao longo dos séculos. Movimentos como o liderado por Abdias Nascimento, que contribuíram incansavelmente pela visibilidade e respeito às culturas negras, do campo das artes visuais às ciências, entendendo a importância das tecnologias estéticas enquanto mundo, representação e imaginação como indeléveis na sedimentação da nossa identidade afro diaspórica ou afro-atlântica para evocar a historiadora quilombola Maria Beatriz Nascimento; as reflexões de Lélia Gonzalez sobre o feminismo negro, racismo estrutural e a necessidade de políticas públicas; ou ainda mencionando Ailton Krenak, as ideias das quais carecemos para demolir esses mundos higienistas branconcêntricos e cessar o projeto de ruína de outros mundos legados a nós por uma ampla ancestralidade negra e indígena, são fundamentais para entender o ingresso de pessoas negras e indígenas nas universidades brasileiras, e o bem viver de todos em sociedade.
Esse avanço é também uma materialização do Sankofa: ao olhar para as lutas passadas, como as demandas por justiça social e racial, avança no presente, criando espaços de resistência e formação crítica dentro das instituições acadêmicas que tendem a se espalhar pela sociedade como um todo. Nesse sentido, o ensino superior se torna um campo fértil para a construção de um futuro mais inclusivo e mais plural, onde o conhecimento produzido dialoga com as realidades e necessidades de grupos historicamente marginalizados. bell hooks enfatiza a importância da pedagogia crítica, que valoriza as vozes dos oprimidos e promove a justiça social tendo no amor pelos pares uma premissa central, não um amor romantizado, mas um amor pela vida humana que nos ombreia nas mesmas disputas por existir com dignidade.
O movimento negro e o movimento de mulheres negras e indígenas desempenham um papel essencial na pressão por políticas educacionais mais inclusivas e representativas. Com o Sankofa como guia, o desafio é não apenas ocupar esses espaços, mas também transformá-los, garantindo que o conhecimento seja uma ferramenta de emancipação e construção de futuros mais equitativos, de modo, a honrarmos aqueles e aqueles que no passado iniciaram esse movimento.
O Artefatos da Cultura Negra é uma ação permanente de extensão realizada anualmente no Cariri cearense e que na última semana de setembro ganha o formato de um Congresso Internacional e multidisciplinar a partir de uma rede colaborativa entre as principais instituições de ensino superior do Estado do Ceará, o movimento negro e os terreiros de cultura de tradição negra e indígena da região.
As atividades propostas para o XVI Congresso Internacional Artefatos da Cultura Negra aconteceram no período de 20 a 27 de setembro de 2025 consistem na realização de palestras, mesas-redondas, exposições artísticas, workshops, minicursos, grupos temáticos de discussão, sessões de comunicações de pesquisas e relatos de experiências, lançamentos de livros, atividades culturais, cines-debate, feiras culturais e pedagógicas, ações formativas para o público infantil, científicos entre pesquisadores(as) brasileiros(as) e estrangeiros(as).
Os Artefatos da Cultura Negra se constituíram enquanto espaço importante de formação política, pedagógica e cultural pautando a necessidade de construção de uma educação antirracista que positiva a presença negra na história e na cultura brasileira, ao tempo em que aponta proposições no campo das políticas públicas para a superação das desigualdades étnico-raciais.
As atividades serão realizadas nos auditórios pátios e salas de aula da Universidade Regional do Cariri – URCA nos municípios de Crato, Juazeiro do Norte e Iguatu – CE, da Universidade Federal do Cariri – UFCA/ Campus Juazeiro do Norte e Brejo Santo, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará/ Campus Juazeiro do Norte e Crato-CE e em outros espaços como centros culturais, praças públicas, escolas de educação básica, ONGs, quilombos, entre outros.
