Sociabilidade associativismo: identidades negras como parte do conforto espiritual

Por Henrique Cunha Junior

As populações se aglomeraram lugares dentro dos espaços urbanos por variadas razões que vão da escolha própria, no caso dos grandes quilombos, a submissão às práticas do escravismo criminoso como foram nas regiões portuárias. As aglomerações populacionais sempre carregam bases de origem geográfica e culturais. São conhecimentos e memórias históricas por vezes difíceis de explicar a suas existências e permanência, sendo, por vezes possível a sua constatação. Sendo assim parte das necessidades imateriais quando da instalação num determinado espaço geográfico decorrem da memória histórica, da cultura e dos marcadores de identidade da população ali aglomerada. Nas sociedades africanas os seres humanos são seres integrais quanto à relação da mente, do espírito, da matéria e do ambiente (Cunha Junior, 2026). Nas sociedades de descendência africana por muito tempo se conservaram práticas sociais que produziram uma estabilidade emocional que aqui estamos definindo como conforto espiritual. Pela necessidade de equilíbrio e harmonia do ser humano com o ambiente e o meio social é que as comunidades africanas e afrodescendentes tiveram no passado e ainda de certa maneira têm como no presente como valores sociais a sociabilidade e o associativismo. O conforto espiritual faz parte da forma africana e afrodescendente da hermenêutica do bem viver (Cunha Junior, 2020).

A parte material do ser, não apenas um corpo como definido nas sociedades europeias. A parte material tem conexão energética com o meio ambiente e com as energias da natureza. Portanto, definir o ser humano a partir do corpo é limitar a integração entre matéria fisica, mente, espíritos e meio ambiente. Não tratamos apenas de corpos e corporeidade, o escravismo criminoso incutiu essa i errada fórmula por separar a matéria do ser, pensar o africano apenas como força física, destituída da humanidade,que integra a mente e o espírito. Na concepção europeia o trabalho é executado pela matéria física em separada da mente e do espírito. A redução do ser sem cultura , sem história, sem pensamento próprio. Pensar a mão de obra apenas como trabalho físico, sem formação profissional anterior, sem aprendizado, e sem espírito, sem sentimento. Esses são os erros da história e da ciência eurocêntrica sobre as nossas populações africanas e afrodescendentes. Assim a produção da sociabilidade e do associativismo foi e continua sendo uma forma psico-social de manter a estabilidade e harmonia do ser humano, apesar das dificuldades impostas pelo escravismo criminoso e pelo capitalismo racista antiengro. Considero, portanto, o associativismo e sociabilidade das populações negras como um ato político, como parte da reivindicação do direito de bem estar espiritual.

Cunha Junior, Henrique .A filosofia africana dentro da modernidade técnica da filosofia: Notas de aula da disciplina de Bairros negros – UFBA – 2026.

Cunha Junior, H. A. (2020). Se eu fosse ensinar filosofias africanas, eu as ensinaria como a hermenêutica do bem viver. Revista Espaço Acadêmico, 20(225), 120-132. 2020