Uma carta ancestral para quem abriu caminhos

Professor Doutor Samuel Morais
Queridas e queridos ancestrais,
Escrevo esta carta endereçada a vocês e a todas as pessoas que a lerem de maneira responsável. É com o pensamento de Seu Antônio Bispo, um dos maiores intelectuais que esta terra já teve, que abro esta comunicação: “É hora de a gente falar da gente ganhando, porque perdendo eles já falam.”
Falar da gente ganhando, minhas e meus ancestrais, é manter-me fiel a vocês. Significa dizer que não queremos mais que a população negra seja narrada apenas a partir da dor, da escravização, da ausência ou daquilo que nos foi negado. Falar de nós ganhando é falar das nossas conquistas, das nossas tecnologias de resistência, dos nossos territórios, dos nossos saberes, dos nossos mestres e mestras, dos nossos quilombos, dos nossos terreiros, das nossas intelectualidades, das nossas comunidades, das nossas formas de criar, celebrar e produzir conhecimento.
Porque falar de nós ganhando também é uma forma de reexistência. É recuperar a narrativa. É afirmar que não somos apenas aqueles e aquelas sobre quem se fala. Somos aqueles e aquelas que falam. E, quando falamos de nós mesmos, nossa voz não é apenas testemunho. É conhecimento. É ciência. É produção de mundo. Nós pensamos. Nós elaboramos. Nós criamos conceitos. Nós produzimos teorias e metodologias. Nós produzimos ciência. E produzimos ciência a partir dos nossos territórios, das nossas experiências, das nossas ancestralidades, das nossas comunidades e dos nossos corpos.
Como vocês bem sabem, para nós, pesquisadoras negras e pesquisadores negros, ocupar os bancos acadêmicos reservados aos
privilegiados transcende a conquista de títulos e a realização de investigações científicas: trata-se de um ato de subversão, de uma desobediência, como diria Pombagira.
Desobedecer à estrutura imposta é resistir e sobreviver ao tempo.
Decerto, é reforçar os pactos ancestrais de sermos felizes e, na mesma medida, arar o solo, na tentativa de deixar terras férteis para todas e todos que virão, como as senhoras e os senhores deixaram para mim e para tantas outras pessoas.
É preciso, então, saudar quem enfrentou a academia brancocêntrica, quando ela ainda — e, muitas vezes, ainda hoje — resiste à presença dos nossos corpos, das nossas epistemologias e das nossas formas de produzir conhecimento. Saudar quem, quando quase ninguém perguntava sobre a população negra no Ceará, teve a coragem de fazer perguntas que ainda hoje nos
mobilizam:
Onde estamos nós?
Onde estão os negros e as negras do Ceará?
Onde estão nossas histórias?
Saudar quem fez da pesquisa também uma forma de luta. Porque, se estamos aqui, é porque o Movimento Negro reconfigurou as universidades públicas deste país. Sobretudo, as do Ceará. Lugar de onde penso e falo. A gente precisa aplaudir aqui todas aquelas e todos aqueles que fizeram o preenchimento desse espaço que não foi dado para nós.
E, neste momento, quero fazer uma saudação especial ao Movimento Negro e aos orientadores e às orientadoras negros e negras que construíram caminhos para que a população negra pudesse ser pensada e reconhecida em
sua complexidade no Ceará.
Eu saúdo o MNU — Movimento Negro Unificado.
Eu saúdo o GRUNEC — Grupo de Valorização Negra do Cariri.
Eu saúdo o professor Henrique Cunha.
Eu saúdo a professora Sandra Petit.
Eu saúdo a professora Joselina da Silva, em memória.
Pesquisadores e pesquisadoras que contribuíram para colocar em
evidência a população negra no Ceará e para construir pesquisas, metodologias, teorias e epistemologias afrorreferenciadas, a partir do primeiro eixo de pesquisa com ênfase nas questões raciais. Já são centenas de teses e dissertações produzidas sobre a população negra no Ceará.
Mas esse movimento não ficou restrito à capital.
Ele atravessou estradas.
Chegou ao sertão.
Chegou ao Cariri.
Chegou ao nosso território.
E, aqui, quero fazer uma saudação especial à professora Cícera Nunes, que contribuiu para fazer esse debate circular pelo interior do Ceará e, especialmente, para fortalecer, no campo da educação, a produção de conhecimentos sobre a população negra do Cariri.
Isso tem uma força ancestral! Porque todo pesquisador e toda pesquisadora falam de um lugar. Eu falo de um lugar. Você fala de um lugar.
Nós falamos de um lugar. E esse lugar não é apenas geográfico. É lugar de memória. De experiência. De pertencimento. O conhecimento é situado.
Importante mencionar um Oki de Ogum que diz: ele matou o ladrão; Ogum matou o proprietário da coisa roubada. A gente não tem tempo para ingenuidade. A gente precisa ser pesquisador plantado e pesquisadora plantada, porque, em algum momento, vão querer cometer injustiça epistêmica, querendo dizer que nosso trabalho não foi bem escrito, bem feito, que as perspectivas, os nossos assentamentos filosóficos e teórico-metodológicos não são dignos de nota de rodapé.
A gente precisa ser fortalecida a partir do nosso chão.
O projeto que impuseram para nós foi exatamente o projeto no qual deveríamos ser chamadas de “nega maluca”, “negão pirado”, aquelas e aqueles que não sabem o que estão falando porque são apenas objetos da ciência.
Por muito tempo, a população negra foi colocada na sombra da produção acadêmica sobre o Ceará. Como se o Ceará fosse apenas branco, como se a história deste estado pudesse ser contada sem os negros e as negras, como se a escravização tivesse terminado sem deixar marcas de africanidades, como se a população negra fosse ausência.
Mas nós sabemos: Onde disseram objeto de pesquisa, havia sujeitos produzindo conhecimento sobre si, sobre seus territórios e sobre o mundo.
Estudar a população negra no Ceará é, portanto, mais do que produzir dados. É mais do que contar pessoas ou localizar comunidades. É mais do que escrever dissertações e teses. É disputar narrativa! É disputar o direito de existir na história!
Portanto, o estudo da população negra no Ceará segue movendo-se, deslocando-se e deslocando pesquisadores e pesquisadoras que estão disseminando realidades de muitas encruzilhadas investigativas. Vou contar a vocês uma novidade sobre esta carta, meus e minhas
ancestrais: o estudo da população negra no Ceará tem sido construído dentro e fora da universidade. Caminhos que permitiram que novas perguntas fossem feitas, novos pesquisadores chegassem e novas epistemologias encontrassem
espaço.
Mas esse movimento também fez o caminho inverso: o conhecimento saiu da universidade e voltou para os territórios. Porque o Ceará não é um território vazio esperando a universidade chegar.
O Ceará canta afoxé, samba, maracatu e maculelê.
O Ceará dança congadas, coco e reisados.
O Ceará gira pelos terreiros de Umbanda e Candomblé.
O Ceará encanta com seu patrimônio afroarquitetônico, o couro, o ferro, os engenhos, as afrografias, as pedagogias de quilombo, os baobás.
O Ceará produz Pretagogia, miolagens, afrodescendências e tantos e tantos marcadores de africanidades.
Por isso, em oposição declarada às falas construídas sobre a população negra do Ceará, esta carta intenta quebrar, desconstruir, desagregar e impedir toda e qualquer informação equivocada sobre nós. Pretende não permitir que o epistemicídio sequestre pesquisadoras e pesquisadores ou lhes roube a capacidade de filosofar sobre nós mesmos, negros e negras.
Não podemos mais nos comportar como filhos e filhas do Ocidente, como se precisássemos abandonar nossos modos de conhecer, nossas ancestralidades e nossos territórios para sermos reconhecidos como sujeitos capazes de produzir ciência. Tornamo-nos conscientes da riqueza histórica, geográfica, cultural, material, filosófica e pedagógica de quem somos, e isso ORÍ-enta cada vez
mais o nosso povo a posicionar-se diante da não implementação da Lei nº 10.639/2003 e da ausência, no âmbito escolar, do estudo da população negra.
O que descobrimos sobre a população negra no Ceará, minhas e meus ancestrais, é infinito: não cabe nas teses de doutorado e nas dissertações, porque se amplia e se aprofunda para além do que qualquer pesquisador ou
pesquisadora possa imaginar. E, por falar em descobertas, preciso contar-lhes, em linhas gerais, que estudar a população negra no Ceará é também estudar aquilo que foi escondido.
É procurar nos arquivos, mas também na memória dos mais velhos.
É ler os documentos, mas também ouvir as histórias contadas nas calçadas.
É entrar na universidade, mas também sair dela.
É pesquisar o livro, mas também pesquisar o corpo.
É reconhecer a escrita, mas também reconhecer a oralidade.
É compreender que existem epistemologias que não nasceram nas
bibliotecas.
Existem conhecimentos que nasceram na roda.
Na gira.
No terreiro.
Na comunidade.
No quilombo.
Na cozinha.
Na festa.
Na rua.
Na encruzilhada.
Na luta.
E, quando esses conhecimentos entram na universidade, alguma coisa acontece. A universidade também se transforma!
Descobri uma lição potente sobre o estudo da população negra no Ceará, meus e minhas ancestrais: ele é atravessado por afetos ancestrais e afagos pessoais, cujas encruzilhadas passam pela vida dos pesquisadores e pesquisadoras e pela vida de muitas pessoas que cruzaram os caminhos por onde os estudos giram.
Portanto, é um estudo que nunca se acaba! Porque se amplia e se aprofunda a partir dos achados e de uma diversidade de interpretações, desdobramentos e continuidades, possibilitando novas descobertas, rupturas e brechas para outras escrituras. Por isso, considero-o um estudo interminável. Aprendi, ainda, que o estudo sobre a população negra no Ceará e, especificamente, no Cariri, assim como esta carta, é responsável por um processo fundamental de construção de sentido e de autorrecuperação. Nosso ser existe nas palavras porque, ao escrever sentidos para a vida, também produzimos sentidos para outros seres.
Devo dizer a vocês que, quando recordamos nossa trajetória-raiz ao longo de nossos estudos e escrevemos sobre nossa própria história
relacionada às temáticas investigadas, mapeamos nossos territórios, descobrimos a nós mesmos e procuramos um lugar acolhedor — enxergando, a partir de investigações científicas, nosso destino ancestral.
Termino, pois, esta carta com a flecha certeira de Oxóssi lançada na ponta da língua, com as mesmas perguntas iniciais:
Onde estamos nós?
Onde estão os negros e as negras do Ceará?
Onde estão nossas histórias?
Não acredito que haja uma resposta certeira capaz de encerrar a discussão sobre o tema, minhas e meus ancestrais. A ideia é que continuemos feitos Exu, em movimento-ação, desbravando os terreiros, quintais, quilombos rodas, congadas, brincadeiras, festas, tecnologias, engenhos, matas e o patrimônio afroarquitetônico, criando oportunidades de trabalho que honrem as
sementes plantadas por vocês.
Que isso se faça por meio de trocas e do fortalecimento, em uma perspectiva negrorreferenciada, afrorreferenciada e afrocentrada. Abre-se uma nova revoada sagaz nas encruzilhadas, aproximando e nutrindo os olhares curiosos de quem quiser seguir conosco nesse desvendar.
Quem vem?
Eis o questionamento lançado…
Pés no chão para esse movimento.
Abraço fraterno,
Até breve!
Samuel Morais Silva
Samuel Morais Silva é professor efetivo da rede municipal do Crato, no Cariri cearense. Doutor e Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará – UFC, é pedagogo e especialista em Gestão Escolar pela Universidade Regional do Cariri – URCA.
Sua trajetória nasce do compromisso com uma educação que não se limita às paredes da escola, mas se abre para as ruas, as esquinas, as matas, os rios, as cachoeiras, os quintais, os terreiros, as práticas educativas e os saberes ancestrais que resistiram às demandas coloniais. Uma educação que reconhece a ancestralidade como força, o território como espaço educativo e a escola como lugar de encantamento.
